“MÁRIO E O MÁGICO”, UM CONTO ITALIANO DE THOMAS MANN

 

                                                                                    Lea Souki – PUC-MG

 

 

Por que, entre a vasta obra de Thomas Mann, escolhi a novela Mário e o Mágico para uma reflexão sobre literatura e identidade?

Creio que, nessa pequena novela, o autor trata de uma noção importante e muito atual, qual seja, a capacidade de certos indivíduos levarem multidões à obediência, sem o uso da força física, mas pela persuasão. Como contraponto Mann nos revela ainda a possibilidade da revolta contra o tirano.

Antes, devo ressaltar que este ensaio não pretende ser uma análise literária da novela de Mann, mas uma tentativa de motivar e instigar à reflexão através de uma obra cujo tema trata da teoria política e da ética. Para tanto, concentrei meu objetivo em três focos. No primeiro, tecerei algumas considerações sobre aspectos da novela no seu momento histórico; em segundo lugar, fornecerei algumas sucintas informações biográficas sobre o autor, assim como de circunstâncias históricas da Alemanha no período da ascensão do fascismo; a última parte será dedicada à conceitualização da obediência, baseada na crença em qualidades extracotidianas do líder.

Thomas Mann entende a composição artística como uma colocação das coisas no lugar, ao mesmo tempo que uma elucidação sobre acontecimentos vividos. Conforme diz o próprio autor em Esboço de uma vida, ele não havia inventado nada dessa história. Com exceção do final, tudo já lhe havia acontecido um ano antes em um balneário. Muito atento ao que acontecia a sua volta, Mann tenta mostrar, no cotidiano dos comportamentos individuais, a sinalização dos ingredientes de uma liderança autoritária.

Nesse balneário, havia um garçom, um mágico, o hoteleiro, assim como, em Morte em Veneza, sua outra novela italiana, havia o “viajante no cemitério de Munique”, o velho bonito, o gondoleiro suspeito, Tadzio e sua família, a cólera. Desse modo, o artista põe as coisas no lugar e a composição serve como um instrumento de interpretação. Na realidade, foi Erika, filha mais velha do escritor, quem lhe sugeriu o final explosivo, o que adicionou à novela muito do seu caráter inquietante.

Nesta obra, Mann descreve experiências que ele teve em comum com sua nação, transformando-as em arte. O autor narra a história de um mal-estar progressivo, inevitável, que se agrava até tornar-se intolerável. Os acontecimentos vão em um crescendo, percebem-se os sinais de uma catástrofe iminente e nada se pode fazer para impedi-la. O leitor sente alívio quando o tiro ecoa da platéia e o pacato garçom salva-se da humilhação e se investe de dignidade.

Assim começa a história:

 

Torre di Venere me deixou a lembrança de uma atmosfera desagradável. Havia no ar, desde o começo, uma contrariedade, uma irritação, uma superexcitação. E depois, para terminar, houve o choque com este terrível Cipolla, em quem toda a malignidade do ambiente parecia se encarnar e se concentrar perigosamente, figura nefasta e muito impressionante para os olhos humanos. O final foi medonho (pareceu-nos, depois de tudo, que ele já estava determinado de antemão pela natureza das coisas) e a infelicidade quis ainda que as crianças assistissem a ele. Foi uma triste situação, bastante chocante em si, que nasceu de um mal-entendido causado pelas enganadoras promessas desse curioso homem. Eles não compreenderam, graças a Deus, onde terminava o espetáculo e começava a catástrofe, e nós as deixamos na doce ilusão de que tudo tinha sido teatro. ( MANN, Thomas, 1973, p. 17).

 

A história de Mário e o mágico é uma reflexão sobre a condição de liberdade relativa que a nós, humanos, é concedida, e sobre certos perigos que ameaçam nossas limitadas autonomias. Cipolla é um hipnotizador que se passa por mágico, e que, em suas sessões públicas, é capaz de levar um homem, rapidamente, a se comportar como um fantoche. Caberia aqui perguntar: a alusão seria a Hitler ou a Mussolini? Nas palavras de Mann, Cipolla era “o moderno domador de multidões”, “homem de vontade e ação cuja astúcia e energia estavam inteiramente a serviço do mal”. Seu bigodinho lustrado e sua capa evocavam uma certa teatralidade, ao mesmo tempo rancorosa e sem humor.

Inicialmente, em 1932, Mann teria negado o conteúdo político dessa novela, preferindo colocá-la no plano da ética. Mais tarde, porém, em 1948, no texto intitulado Dezesseis anos, ele fala de “uma história com fortes ramificações políticas, que se inclina em segredo sobre a psicologia do fascismo e também sobre a da ‘liberdade’, com sua doutrina da boa vontade, que a coloca num estado de inferioridade diante do robusto querer do seu adversário”. (MANN, Thomas , 1973, p. 179).

Muito se tem especulado sobre o engajamento político de Mann. Creio que o mais apropriado seria considerá-lo como algo que se foi configurando ao longo de sua vida, ao mesmo tempo em que procurava preservar sua liberdade como intelectual. Sabe-se da simpatia que Mann nutriu pelo nacionalismo na mocidade. Aliás, o mesmo ocorreu com grande parte da intelectualidade alemã, mesmo porque, naquela época, o nacionalismo não estava restrito aos pobres de espírito. Contudo, a partir da década de 20, Mann já se posicionava publicamente, não reconhecendo no nazismo as características do sentimento de ser alemão que ele alimentava. Em janeiro de 1925, quando revia seu discurso Goethe e Tolstoi, escrevera:

 

Não me proponho a tratar do fascismo alemão, nem das circunstâncias inteiramente compreensíveis que lhe deram origem...É uma religião popular pagã, um culto a Wotan: é para ser ofensivo — e pretendo ser ofensivo — uma romântica barbárie. (HAMILTON, N. 1985, p.354).

 

Para melhor compreender essa dimensão de sua vida e obra, é pertinente considerar alguns aspectos de sua biografia, bem como do momento de ascensão do fascismo alemão.

Mann era filho de um próspero comerciante e senador de Lubeck, cidade do norte da Alemanha, e de uma brasileira, nascida Júlia da Silva Bruhns, descendente de alemães e portugueses. Tanto ele como o irmão, Heinrich, em tenra idade, submeteram-se à vontade do pai em torná-los comerciantes. Enquanto o pai vivia, os irmãos tiveram que entrar como aprendizes em firmas comerciais, embora a pressão para uma carreira de negócios fosse muito maior sobre Heinrich do que sobre seu irmão mais jovem. Contudo, foi Júlia Mann aquela que efetivamente iria marcar sua influência em toda a família com seu interesse pela arte e sua preocupação em criar condições para que os filhos seguissem uma carreira literária. Quando se enviuvou, ainda jovem, mudou-se para Munique e, aí, montou um salão para saraus, onde recebia artistas e escritores. A história dos dois irmãos e suas respectivas obras são marcadas pela presença de Júlia, uma mulher corajosa e determinada.

Em 1898, aos vinte e três anos, Mann publicou seu primeiro livro de contos, O Senhorzinho Friedeman. Em 1901, lançaria o famoso romance Buddenbrook, história de três gerações de uma família de Lubeck, livro muito influenciado pela literatura francesa, especialmente pelo naturalismo de Zola. Mário e o mágico foi escrito em sua casa de praia no mar Báltico, em 1929, e publicado em 1930. Deve-se observar que, para alguns, o livro pareceu uma estranha e profética história de feitiçaria. A novela nasceu em um dos intervalos do primeiro volume de José, sua trilogia bíblica sobre José do Egito, a qual ele só veio a terminar nos anos 50, em seu exílio nos Estados Unidos, do mesmo modo que Morte em Veneza foi criado enquanto Mann compunha A Montanha Mágica.

Eis o que disse o próprio autor sobre o seu método de trabalho:

 

Habitualmente meus trabalhos narrativos acompanham-se de pequenos brotos sob forma de ensaios. Freqüentemente a incitação de escrevê-los pode vir de fora, mas no fundo eles só têm a finalidade de fortificar-me no meu propósito de narrador.

 

Um outro dado que merece registro na biografia de Mann é que, pouco depois de ter começado a escrever José, em 1926, ele receberia o Prêmio Nobel, em 1929. A respeito do prêmio, Mann escreveu a André Gide:

 

O mais divertido de tudo é que o crítico e professor de literatura Book, de Estocolmo, que costumeiramente tem uma influência decisiva na escolha do ganhador do Prêmio Nobel, proclamou publicamente a monstruosidade artística do livro e disse que eu estava recebendo o prêmio exclusivamente, ou pelo menos em grande parte, por causa do meu antigo romance Os Buddenbrook”. (Carta de 20/01/30 - Apud HAMILTON, 1985, p.344).

 

Já em Esboço de uma vida, Mann também fala do “documento lindamente executado que o rei Gustavo me deu, de que eu devo o prêmio principalmente à estima que os povos nórdicos têm pelo meu romance juvenil sobre a vida familiar em Lubeck”. (Apud HAMILTON, 1985, p.344).

Nessa época, diante das homenagens que recebia, Mann tinha cada vez mais que lidar com o crescimento do nacionalismo na Alemanha. O resultado das eleições de 1930 e o engajamento de intelectuais, artistas e filósofos na causa nacionalista chegavam ao seu círculo mais íntimo. Parecia o sinal dos tempos. Seu compadre e confidente, Ernest Bertam, professor em Colônia, se aproximara definitivamente do nacionalismo, e a ele se seguiram outros. Sobre esse período, bem como sobre seus compromissos com a República de Weimar, Mann escreveu em Dezesseis anos:

 

Devemos pensar que, na época que comecei José, as tensões políticas interiores do pós-guerra na Alemanha já haviam atingido seu apogeu, e nesses anos de 1920, por causa de minha obras políticas, eu realizei minha obra artística sob a pressão, as perturbações morais e o peso do ódio nacional. A situação honrosa oficial que a República me reconhecia não mudava nada, e me obrigava a todas as espécies de discursos solenes. Os artigos, conferências, manifestações oficiais, adjurações políticas, prosseguiam paralelamente.

 

Sua indignação e preocupação prosseguiam em um crescendo de compromissos e declarações públicas que, por fim, o indispuseram com os nazistas. As posições de Mann, na verdade, se tornaram bastante divulgadas. Os amigos e muitos admiradores literários se inquietavam por suas declarações políticas e viam nesse engajamento uma investida na arena política, indigna de um escritor de sua estatura. Por outro lado, deve-se lembrar de que tal engajamento foi uma reação a sua impotência criativa anterior à guerra, uma reação que provavelmente iria fortalecê-lo. Em síntese, o desejo de “participar” foi um sinal de coragem que, certamente, o ajudou a sobreviver à inveja, à privação e aos constrangimentos que enfrentaria até a morte. Pode-se afirmar que nem Hitler nem o mccarthismo destruíram a resistência construtiva do gênio que sobreviveu ao Estado terrorista alemão e, posteriormente, à desilusão em seu exílio nos Estados Unidos. Neste último caso, não se pode esquecer do fato de que Mann sentira-se incomodado com a superficialidade e a má recepção de certos críticos norte-americanos em relação a José.

De volta ao contexto no qual foi escrito Mário e o mágico, em 30 de janeiro de 1933 Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha por Hindemburg. Três semanas depois, Heinrich e Thomas estavam no exílio. Mas não foram as confissões públicas de Mann e sua adesão aos social-democratas que lhe valeram a expulsão da Alemanha e, sim, a conferência por ele pronunciada em comemoração ao cinqüentenário da morte de Richard Wagner. A conferência provocou a indignação dos mais importantes funcionários, professores e artistas de Munique. Conforme declaração dos 45 signatários do protesto, a cidade natal do compositor se indignava por ele (Mann) ter “caluniado nosso grande gênio musical”. Estando fora da Alemanha, pois viajara para ler a conferência em Amsterdã, Bruxelas e Paris, Mann planejava seguir de férias para a Suíça, junto com sua mulher, Katia. Foi aí que recebeu a notícia do incêndio do Reichstag e da vitória de Hitler, com 288 cadeiras, na eleição geral de 5 de março.

Os signatários do protesto, que esperavam seu regresso para agir, provavelmente se frustraram com a decisão de Mann de não voltar à Alemanha. Alguns dias antes, seu irmão, Heinrich, havia se exilado em Paris. De Munique, seus filhos, Erika e Klaus, aconselharam os pais a não voltarem. É que a casa da família havia sido ocupada pelo comandante da Casa Parda de Munique, o qual estava interessado no automóvel do escritor. Erika, a filha mais velha, ainda conseguiu recuperar alguns escritos do pai.

A vitória nazista nas eleições de 5 de março de 1933 selava o fim de Weimar. Contando com maioria absoluta, Hitler pôde aprovar o seu “Ato de Incumbência” no Reichstag, o que dava a seu gabinete o poder de legislar sem o referendo do parlamento. Dois meses depois, todos os outros partidos políticos, inclusive os nacionalistas que o apoiaram, foram fechados. Nos meses seguintes, Mann adotou uma posição discreta em relação aos acontecimentos e coube a Heinrich, em Paris, defender a causa do antifacismo alemão. Nas cerimônias de queima de livros montadas em todo o Reich, em maio de 1933, Mann foi poupado, o mesmo não ocorrendo com Heinrich.

Retornemos agora ao tema de Mário e o mágico, para, em seguida, tentarmos esclarecer certos aspectos da liderança carismática. Cippola, o mágico, é um domador de multidões, mas é também uma “cebola”, formado de camadas superpostas, sem nada diferente em seu interior. O mágico tem uma capacidade teatral e persuasiva de gerar a submissão. A platéia não se distancia, ao contrário, parece estar hipnotizada. Tanto que ocorre um intervalo na apresentação do mágico e ninguém se retira. O próprio autor não explica sua permanência no local:

 

Antes de qualquer outra coisa, é preciso dizer que neste momento houve um intervalo e o homem que nos tinha sob seu domínio retirou-se. Confesso que temi este ponto de minha história desde o momento em que a comecei. Geralmente não é difícil ler o pensamento das pessoas, e aqui foi muito fácil. É claro que vocês irão me perguntar por que não fomos embora finalmente. E sinto-me na obrigação de ficar devendo uma resposta. Eu mesmo não compreendo e não saberia realmente me justificar ( MANN, Thomas. 1973, p.47).

 

As crianças, por exemplo, insistem em permanecer ali, incapazes de distinguir o grotesco do trágico. Há um clima premonitório e, ao mesmo tempo em que se percebe a manipulação do mágico, não se pode dela escapar, não há como evitá-la. O fim explosivo e catastrófico está no ar. Em resumo, o autor chega a um balneário com a família e vários acontecimentos incômodos sugerem que ele desista e vá embora. Contudo, ele fica, a sensação é desagradável, mas o prende.

Mann ficou satisfeito quando um crítico disse, a respeito dessa novela, que ela não tinha nada contra os italianos. Talvez ele tenha preferido ver a fera através do espelho e assim preferiu falar dos “meridionais”:

 

Ele soube se impor pela palavra. Entre os meridionais, a linguagem é um ingrediente da alegria de viver, e dão a ela um valor social muito mais importante do que o fazem no norte. Entre os povos do sul, tem-se em grande honra esse elo nacional, que é a língua materna ...(MANN,Thomas. 1973, p.35).

 

Cippola soube se fazer cativar a ponto de gerar obediência e, junto, a perda da dignidade. A obediência que ele gera é “voluntária”, na medida em que a força física não é usada, não obstante a persuasão tenha ultrapassado os limites da dignidade. Sobre isto, é esclarecedor o que o autor fala a respeito da confusão de emoções contida no espetáculo:

 

Curioso e cativante, inquietante e doloroso, e também humilhante. Talvez mais ainda. Essa sala constituía o ponto de condensação de toda a curiosa singularidade, de toda a insegurança, de toda a tensão de que a atmosfera de nossa estada em Torre estava carregada. Esse homem cujo retorno esperávamos parecia encarnar tudo isso. E como não havíamos feito uma “grande” partida, seria ilógico fazer uma “pequena” partida. Aceitem ou recusem essa explicação. Em todo caso, não tenho uma melhor. (MANN,Thomas. 1973, p. 48).

 

Cippola não age sozinho. Mário, o garçom, é humilhado, revelando sua própria intimidade ao público, público que, seduzido por Cippola, torna-se seu aliado. Os que percebem a trama não conseguem sair ou tomar qualquer iniciativa. Não há ninguém na platéia capaz de escapar à experiência totalitária. Os poucos inquietos ali presentes são incapazes de tomar qualquer decisão.

Tomemos agora de empréstimo alguns recursos da teoria política. Uma importante reflexão sobre a obediência remonta a Ettiene La Boettie (1500), em seu conhecido Discurso da Servidão Voluntária. Dito de maneira bastante simplificada, segundo ele as pessoas obedecem por hábito, porque não sabem que podem deixar de fazê-lo; por sedução, porque os governantes as encantam: e para amealhar bens, isto é, por interesse. Quatro séculos mais tarde, Max Weber reelaborou essas três condições da obediência, baseando-se na construção dos três tipos puros de dominação legítima: tradição, carisma e racionalidade. Essa abordagem é uma construção teórica, apresentada através do recurso da comparação e conceituada através de tipos ideais, aqueles que não se encontram em estado puro na realidade.

Em que medida o esquema teórico dos três tipos de dominação legítima construído por Weber podem ser úteis para a compreensão da obediência da maneira como a estamos tratando aqui, obediência e perda da dignidade? Como já foi sugerido anteriormente, Mário e o mágico é um libelo contra o fascismo e, especificamente, contra aquele líder carismático que doma e amordaça multidões. No caso de Hitler, não podemos nos esquecer do caráter legal de sua ascensão — ele chegou ao poder através de eleições. A coerção estava, naturalmente, embutida. Em sua ascensão prevaleceram os ingredientes de sedução. O calor do encantamento que ele gerou, politicamente, foi um aval para sacrifícios futuros. Portanto, não estava escrito na testa do sedutor de multidões que, por trás do consentimento, viria a coerção, e que, detrás dos interesses coletivos, estavam os interesses particulares, daí sua força de transformação.

Para compreender melhor este tipo de relação, pode nos ser útil a distinção entre consentimento informado e consentimento manipulado. De uma maneira bastante suscinta, considera-se o consentimento manipulado aquele que ocorre quando as metas, não sendo coletivas, se apresentam como tal. Portanto, quem tem controle e influência sobre os outros se apresenta como portador das metas coletivas do grupo. A manipulação ocorre na medida em que o controlador deverá obscurecer o caráter privado de seus objetivos, os quais não poderão ser compreendidos. Assim, o controle e a influência sobre a ação dos outros são exercidos contra a vontade deles ou sem o seu entendimento. O consentimento informado, ao contrário, ocorre na situação em que existem metas coletivas e o consentimento sobre a ação dos outros se dá através de uma avaliação que pode ser racional e constatável. Ou seja, pode-se conhecer as razões do consentimento, portanto não é necessário haver obscurecimento da consciência ou do que estamos entendendo aqui como manipulação.

 De outra parte, vamos tentar entender o carisma lembrando que o conceito é comparativo, isto é, comprende-se melhor esse tipo de dominação comparando-o com os tipos tradicional e racional-legal. Na tradição, obedece-se à pessoa em virtude do hábito; no carisma, obedece-se à pessoa do líder em virtude do afeto capaz de gerar a crença em suas qualidades extracotidianas; na dominação racional-legal, obedece-se não à pessoa, mas ao cargo que ela ocupa em virtude da disciplina de serviço e baseando-se no critério da competência específica.

Aqui são necessários alguns esclarecimentos. O senso comum hoje utiliza o termo carisma como atributo de uma pessoa ou também como puro charlatanismo. Na teoria de Weber, só é considerada carismática a liderança que faz seguidores. O charme pessoal, o encanto de um ator, atriz ou apresentador de programa de televisão costumam ser chamados incorretamente de carisma, pelo menos do ponto de vista técnico. Outro engano comum no uso do termo é confundi-lo com demagogia, ou com o charlatanismo, simplesmente.

De acordo com Weber, o líder carismático pode ser o grande demagogo, o herói guerreiro e o profeta. No conjunto do seu esquema teórico, o carisma como o “sempre novo” é visto como o tipo de liderança mais autoritária, mas também a que tem o maior poder de transformação. Sendo assim, entende-se a razão que levou Weber, ao final da vida, preocupado com a “jaula de ferro” da racionalidade instrumental, a pensar no surgimento de um novo profeta como solução para a humanidade.

Com isto, quero dizer que utilizar o conceito de carisma não seria de todo correto para o caso de Mário e o mágico, mas também não seria de todo incorreto. A relação desigual, que é capaz de encantar e gerar formas de obediência as mais devastadoras, é descrita por Mann tanto no seu aspecto de transformação como de destino inevitável. Além disso, é magistral a maneira como Mann revela a violência embutida na sedução do mágico. Cippola é capaz de fazer um púbico inteiro (quase toda a pequena cidade estava presente à sessão) crer em suas qualidades extracotidianas e, por isso, gerar um fascínio que leva à obediência. Obediência que foge aos limites da dignidade. Alguém se humilha sem ser coagido fisicamente e a submissão é tamanha que alguns agradecem a oportunidade de vivenciá-la. Até que um garçom busca recuperar sua dignidade. Mann fala-nos, assim, da capacidade de revolta contra o tirano:

 

Mário volta-se bruscamente, ergue rapidamente o braço, e dois tiros ecoam, entre os aplausos e risos.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

HAMILTON, N. Os irmãos Mann. São Paulo, Paz e Terra, 1985.

MANN, T. Mário e o Mágico. São Paulo, Círculo do Livro, 1973.

WEBER, M. Los tres tipos puros de dominácion legítima. IN Economia y Sociedad” . México, Fondo de Cultura Eonómica, 1973.